sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fughetti Luz - Tempo Feiticeiro [2017]

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Por Juarez Fonseca em Zero Hora

Mick Jagger canta desde 1974: "É apenas rock'n'roll, mas eu gosto". No aguardado terceiro álbum solo, que acaba de lançar, Fughetti Luz demonstra talvez como nunca nos 50 anos de carreira que para ele o rock'n'roll não é "apenas", mas quase tudo. Durante as gravações do definitivo Tempo Feiticeiro, entre 2015 e 2016, sua alma rocker foi posta à prova algumas vezes e em todas ele ultrapassou as pedras do caminho. Para começar, teve de superar as dores nas pernas, resultado de décadas de esforço para caminhar desde a paralisia infantil adquirida aos três anos. Também precisou retrabalhar a voz, pois não cantava desde 2004.

Nas inúmeras vezes que Marcelo Truda, o produtor do disco, chegava a sua casa em Tapes (onde vive há 17 anos), para colocar a voz em bases pré-gravadas, Fughetti tinha de estar a postos nos dois sentidos. Quando, em outubro de 2015, Zero Hora esteve lá para registrar o processo da "volta" ao disco mais de 10 anos depois do segundo (Xeque-Mate, 2002), ele contou por que se recusava a cantar sentado, ainda que assim minimizasse o desconforto com as dores: "Rock'n'roll, pra mim, é em pé. Mesmo sem palco e público, faço questão de estar de pé para gravar o disco. Posso parar, descansar um pouco, mas cantar tem que ser em pé".

A primeira pedra que ele teve de remover, no entanto, foi deixar de lado a "aposentadoria" e atender aos apelos dos amigos/discípulos/fãs para fazer seu "testamento musical". Integrante das três categorias, Truda, "seguidor de Fughetti desde os 12 anos" e ex-integrante de uma banda influenciada por ele, a Taranatiriça, assumiu a definição musical do projeto. Agregou músicos de quatro décadas, desde os velhos companheiros das bandas Liverpool (anos 1960) e Bixo da Seda (anos 1970) até gente dos novos tempos do rock gaúcho. Seu envolvimento em quase todas as fases do processo fez da "little help" dos amigos um grande acontecimento.


Disco traz releituras e quatro faixas inéditas

Além de Truda, mais de 30 pessoas, entre músicos e equipe de produção, integraram-se ao projeto que é, ao mesmo tempo, um até então quase impensável novo álbum do cantor/compositor e uma tocante homenagem a ele – que em março comemorou 70 anos. Poucas vezes se ouviu no Brasil um álbum de rock'n'roll tão poderoso e visceral. Entrega total. "Rock é só o que eu sei fazer", sempre se definiu Fughetti. Foram selecionadas 15 músicas, sendo quatro inéditas, entre elas a sintética e ácida Hendrixmania, reunindo os parceiros do Liverpool/Bixo da Seda Mimi Lessa, Marcos Lessa e Edinho Espíndola.

Outra inédita é o único blues explícito, Já Era o Que É, parceria com Truda e o jornalista Gilmar Eitelwein, em que brilham o órgão de Luciano Leães e a harmônica de Alex Rossi. Antes de prosseguir, vale anotar que nessa e na maioria dos arranjos a base tem Truda na guitarra e baixo e Edinho na bateria, ambos mandando ver. Oito das escolhidas por Fughetti foram gravadas originalmente pelas bandas Guerrilheiro Anti-Nuclear e Bandaliera, formadas no fim dos anos 1980 por inspiração dele para tocar seus rocks.

Tempo Feiticeiro, por exemplo, que dá nome ao disco de agora, foi gravada antes (1992) pela Bandaliera, que lançou dois de seus hits: Campo Minado, com o acréscimo da guitarra de Gabriel Guedes, e Nosso Lado Animal, com arranjo bem diferente, passando de um clima épico para o rock'n'roll essencial, a base já mencionada mais Marcelo Guimarães no segundo vocal, Gabriel Guedes de novo, Preto Pavanelli no violão e Egisto Dal Santo no baixo, Truda tocando ainda órgão. "Nosso lado animal de vez em quando precisa tomar sol", diz a letra. Outro sucesso é Circuito Emocional, lançado pelo Taranatiriça em 1987, rockão que aqui recebe um coro de seis vozes, incluindo a filha Shanti Luz e a neta holandesa Bibiana, a quem também dá parceria.

Ele selecionou o repertório privilegiando músicas que mais reúnem seus "toques" filosófico-político- existenciais, como Mudou o Vento: "Droga é ver a floresta queimar/ Droga é ver o governo mentir/ Droga é a caretice que só faz tolice/ Pro homem não evoluir". Ou Linha Divisória: "É preciso ir mais além/ E animar a vida, meu bom/ Na beira do abismo/ É que a gente vê quem é quem". Quem é quem, no disco, além dos já citados: Duca Leindecker, Duda Calvin, Luiz Carlini, Márcio Petracco, Ronaldo Pereira, Zé Natálio, Bebeto Mohr, Mateus Mapa, Cau Neto, Marco Aurélio Kirsch, Adriana Vargas, Aline Dillenburg, Guto Silva e Paulo Romero, autor das ótimas ilustrações.


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